Longevidade · 5 min de leitura

Terapia hormonal na menopausa: por que o momento importa

Começar nos primeiros 10 anos após a menopausa e antes dos 60 muda o balanço entre benefícios e riscos. Entenda a janela de oportunidade e as opções de tratamento.

Fonte:Springer — Menopausal Hormone Therapy (capítulo do livro Obstetric and Gynecological Women's Health)

Mulher de cerca de 50 anos, cabelo grisalho curto e regata verde, comemora de braços abertos no cume de uma montanha, ao entardecer.
Aviso

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.

Poucas áreas da medicina mudaram tanto de reputação quanto a terapia hormonal da menopausa. Ela passou de rotina a vilã e, aos poucos, voltou a ser vista pelo que é: um tratamento eficaz, com riscos que dependem muito de quem usa e quando começa.

Um capítulo recente de pesquisadores da Universidade de Pisa, publicado pela Springer, resume esse ponto em uma frase: oferecer suporte hormonal nos primeiros 10 anos após a menopausa e, de todo modo, antes dos 60 anos tem efeitos benéficos confirmados para a saúde da mulher. E a variedade de hormônios disponíveis hoje permite um tratamento feito sob medida.

Por que a terapia hormonal ganhou má fama

Em 2002, o Women’s Health Initiative (WHI), um grande estudo americano, interrompeu antes do previsto o braço que testava estrogênio combinado a progestagênio. O motivo foi um aumento do risco de câncer de mama, além de mais casos de trombose e AVC. A notícia correu o mundo e milhões de mulheres pararam o tratamento.

O detalhe que se perdeu na manchete: a idade média das participantes era de 63 anos, e muitas tinham entrado na menopausa havia mais de uma década. Não era o perfil típico de quem procura tratamento para os sintomas.

Quando os dados foram reanalisados por faixa etária, o quadro mudou. Entre as mulheres de 50 a 59 anos, os riscos absolutos foram baixos e o balanço entre benefícios e riscos foi mais favorável do que entre as mais velhas.

A janela de oportunidade

Daí veio o conceito que hoje orienta as diretrizes:

  • Até 10 anos após a menopausa, ou antes dos 60 anos, sem contraindicações, a relação entre benefícios e riscos tende a ser favorável para quem tem sintomas.
  • Depois disso, os riscos cardiovasculares, de trombose e de AVC pesam mais, e começar o tratamento exige uma avaliação bem mais cuidadosa.

Não existe uma data para parar automaticamente. Quem começou dentro da janela pode continuar, desde que o médico reavalie periodicamente se os benefícios ainda superam os riscos.

Para quem ela é indicada

A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para:

  • Ondas de calor e suores noturnos de intensidade moderada a grave.
  • Síndrome geniturinária da menopausa: ressecamento vaginal, dor na relação e sintomas urinários.
  • Prevenção da perda óssea em mulheres com risco de osteoporose.

Ela não é um tratamento para “rejuvenescer” nem para emagrecer. A menopausa tende a deslocar a gordura para a região abdominal, e o tratamento pode atenuar essa mudança, mas peso continua dependendo de alimentação, treino de força e sono.

As opções disponíveis

O capítulo destaca a variedade de compostos como a grande vantagem atual. Cada um tem um papel:

Opção O que é Para que serve
Estrogênio Em geral estradiol, por via oral, adesivo ou gel Base do tratamento dos sintomas e da proteção óssea
Progestagênio Progesterona ou derivados Protege o endométrio em quem tem útero. Estrogênio sozinho aumenta o risco de câncer de endométrio
Androgênio Testosterona transdérmica Desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa
Tibolona Esteroide sintético com ações estrogênica, progestagênica e androgênica Alternativa à combinação clássica em casos selecionados
SERM Moduladores seletivos do receptor de estrogênio Agem como estrogênio em alguns tecidos e o bloqueiam em outros. Há opções para osso e para dor na relação
TSEC Estrogênio combinado a um SERM Trata sintomas e protege o endométrio sem precisar de progestagênio

A via também conta. Estudos observacionais sugerem que o estrogênio transdérmico (adesivo ou gel) tem menor risco de trombose do que o oral, o que pesa na escolha para mulheres com mais risco.

Estrogênio vaginal

Quando o problema é só a síndrome geniturinária, o estrogênio aplicado na vagina, em dose baixa, costuma bastar. A absorção para o resto do corpo é mínima. Um estudo finlandês com usuárias de estradiol vaginal não encontrou aumento de mortalidade cardiovascular, e o risco observado foi até menor.

Testosterona em mulheres

Uma meta-análise mostrou benefício da testosterona transdérmica no desejo sexual hipoativo de mulheres na pós-menopausa. Aqui o olhar fisiológico é essencial: o alvo é a faixa feminina de testosterona, muito mais baixa que a masculina. Doses acima disso trazem acne, aumento de pelos, alteração da voz e outros efeitos que podem não ser reversíveis.

Humor e sono

A transição para a menopausa é um período de maior risco de sintomas depressivos, mesmo em quem nunca teve depressão. Em um ensaio clínico, estradiol transdérmico com progesterona micronizada reduziu o surgimento de sintomas depressivos em mulheres nessa fase.

Isso não faz da terapia hormonal um antidepressivo. Depressão instalada continua pedindo avaliação e tratamento próprios. Mas, quando ondas de calor noturnas fragmentam o sono, tratar os sintomas costuma melhorar descanso, humor e disposição.

Quem não deve usar

Algumas situações contraindicam ou exigem cautela extrema:

  • Câncer de mama atual ou passado, ou outros cânceres dependentes de hormônio.
  • Sangramento vaginal sem explicação.
  • Trombose ou embolia prévia.
  • Infarto, AVC ou doença cardiovascular estabelecida.
  • Doença ativa do fígado.

Por isso, antes de começar, entram na conversa o histórico pessoal e familiar, exames, mamografia e a avaliação do risco cardiovascular.

O olhar fisiológico

A lógica é a mesma que guia todo o blog: repor o que o corpo deixou de produzir, na menor dose que controla os sintomas, pelo tempo que fizer sentido. O objetivo é qualidade de vida e saúde óssea e metabólica, não níveis hormonais acima do normal.

Desconfie de promessas estéticas

Implantes e fórmulas vendidos com promessas de mais disposição, libido ou corpo definido muitas vezes usam doses acima da faixa fisiológica, e às vezes hormônios masculinos em doses masculinas. Isso não é terapia hormonal da menopausa. Quem indica tratamento deve explicar qual hormônio, por qual via, em que dose e com quais exames de acompanhamento.

Se você está perto dos 50 anos ou entrou na menopausa recentemente e tem sintomas que atrapalham o dia a dia, vale conversar com o ginecologista agora, dentro da janela, e não anos depois. Para a visão geral de reposição hormonal em homens e mulheres, veja nosso artigo sobre reposição hormonal fisiológica e envelhecimento.

Fonte:Springer — Menopausal Hormone Therapy (capítulo do livro Obstetric and Gynecological Women's Health)

Referências

  1. Antonelli A, Giannini A, Caretto M, Simoncini T, Genazzani AR. Menopausal Hormone Therapy. In: Obstetric and Gynecological Women's Health. Springer, Cham; 2026. p. 979-990.
  2. Writing Group for the Women's Health Initiative Investigators. Risks and Benefits of Estrogen Plus Progestin in Healthy Postmenopausal Women. JAMA. 2002;288:321-333.
  3. Manson JE et al. Menopausal Hormone Therapy and Health Outcomes During the Intervention and Extended Poststopping Phases of the Women's Health Initiative Randomized Trials. JAMA. 2013;310:1353.
  4. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29:767-794.
  5. Gordon JL et al. Efficacy of Transdermal Estradiol and Micronized Progesterone in the Prevention of Depressive Symptoms in the Menopause Transition. JAMA Psychiatry. 2018;75:149.
  6. Achilli C et al. Efficacy and safety of transdermal testosterone in postmenopausal women with hypoactive sexual desire disorder: a systematic review and meta-analysis. Fertil Steril. 2017;107:475-482.
  7. Mikkola TS et al. Vaginal estradiol use and the risk for cardiovascular mortality. Hum Reprod. 2016;31:804-809.