Testosterona em mulheres: o que a evidência mostra
A testosterona também é um hormônio feminino. Veja o que os ensaios clínicos comprovam, o que ainda não foi demonstrado, os riscos e por que a dose precisa ficar na faixa fisiológica.
Fonte:The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (Endocrine Society) e outras 10 sociedades — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.
A testosterona não é um hormônio só masculino. O corpo da mulher também produz, nos ovários e nas glândulas adrenais, em quantidade bem menor que a do homem. E ela é cada vez mais prescrita para mulheres, com promessas que vão da libido à energia, ao músculo e ao humor.
A pergunta que importa é: o que os ensaios clínicos realmente mostram? Para responder, usamos o consenso global de 2019 sobre testosterona em mulheres, assinado por 11 sociedades médicas, entre elas a Endocrine Society e a International Menopause Society, e baseado numa meta-análise de 36 ensaios randomizados com 8.480 mulheres. Somamos os estudos que saíram depois.
A testosterona no corpo da mulher
- Ela age diretamente nos tecidos e também é convertida em outros hormônios, inclusive em estradiol, o principal estrogênio.
- Os níveis caem ao longo dos anos reprodutivos, ainda antes da menopausa, e parecem se manter depois dos 65.
- Medir testosterona em mulher é difícil. Os exames comuns de laboratório são pouco confiáveis na faixa feminina; o método recomendado é a espectrometria de massas.
- Nenhum valor de exame separa uma mulher com problema de uma mulher sem problema. Testosterona “baixa” no exame, sozinha, não é diagnóstico de nada.
O que está comprovado
O consenso é claro: a única indicação com evidência sólida é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa. É a falta de desejo sexual que causa sofrimento, diagnosticada depois de uma avaliação completa, que inclui saúde física, emocional e do relacionamento.
Nessas mulheres, a testosterona em dose fisiológica, comparada ao placebo:
- aumentou em média um evento sexual satisfatório por mês;
- melhorou desejo, excitação, orgasmo, prazer e autoimagem;
- reduziu a angústia ligada à vida sexual.
O efeito é moderado e consistente. As vias não orais, como gel e creme na pele, são as preferidas, porque não alteram o colesterol. A testosterona por via oral piorou o perfil de colesterol e não é recomendada.
O que ainda não foi demonstrado
Aqui está o ponto mais mal explicado na internet. Para os outros benefícios, a situação é esta:
| Desfecho | O que os estudos mostraram até agora |
|---|---|
| Bem-estar geral | Sem efeito nos estudos disponíveis |
| Humor deprimido | Sem efeito nos estudos disponíveis |
| Memória e cognição | Evidência insuficiente para recomendar |
| Massa magra, gordura e força | Sem efeito significativo em dose fisiológica |
| Densidade dos ossos | Sem efeito em 12 meses |
| Prevenção de doenças | Sem dados que sustentem |
Os estudos sobre músculo, osso e cognição foram pequenos, curtos e feitos quase sempre em mulheres que já usavam estrogênio. Eles não mostraram efeito, mas não têm força para encerrar a questão. O próprio consenso pede novos ensaios sobre músculo, osso e cognição. Até lá, a resposta honesta é “ainda não foi demonstrado”.
Os estudos mais recentes seguem nessa linha:
- STEP-HI (JAMA Network Open, 2025): 129 mulheres com média de 79 anos, depois de cirurgia de fratura de quadril, fizeram exercício supervisionado com gel de testosterona ou com placebo por 24 semanas. A distância caminhada em 6 minutos, o desfecho principal, melhorou igual nos dois grupos. O grupo com testosterona teve melhora maior numa bateria de testes físicos, mas massa magra e força foram parecidas.
- PAMELA (Universidade Monash, Austrália): 152 mulheres de 55 a 70 anos receberam testosterona transdérmica em dose fisiológica ou placebo por 26 semanas, para medir potência e massa muscular. O estudo foi apresentado em congresso, e os resultados completos ainda não saíram em revista.
Os riscos
Em dose que reproduz a faixa de mulheres antes da menopausa, os ensaios mostraram:
- Acne e aumento de pelos leves em parte das mulheres.
- Sem queda de cabelo, aumento do clitóris ou engrossamento da voz, efeitos típicos de doses acima do fisiológico.
- Sem alteração de pressão, glicemia ou hemoglobina glicada, e sem aumento da densidade da mama na mamografia.
- Uma tendência não significativa de mais trombose, que pode estar ligada ao estrogênio usado junto.
- Sem dados de segurança além de 24 meses, nem dados suficientes sobre infarto, morte ou câncer de mama no longo prazo.
Em 7 de outubro de 2026, a Menopause Society divulgou um estudo apresentado no seu congresso: em mais de 6.300 mulheres de prontuários dos Estados Unidos, quem usou testosterona teve mais eventos cardiovasculares (3,8% contra 0,5%). É um estudo observacional e retrospectivo, ainda não publicado, sem informação sobre dose ou motivo da prescrição, o que pode distorcer muito o resultado. Não prova que a testosterona causou os eventos, mas reforça que a segurança de longo prazo ainda precisa ser estudada.
Como deve ser feito, segundo o consenso
O consenso descreve o cuidado, não uma dose:
- Diagnóstico por avaliação clínica completa, nunca só pelo exame de sangue.
- Formulação que mantenha o nível na faixa fisiológica de mulheres antes da menopausa.
- Dosar a testosterona total antes de começar, de novo entre 3 e 6 semanas, e depois a cada 6 meses, para evitar excesso.
- Se não houver benefício em 6 meses, parar.
- Onde não existe produto feminino aprovado, produto masculino em dose feminina, com monitoramento, é considerado razoável. Preparações manipuladas não são recomendadas.
- Implantes, pellets e injeções que levam a níveis acima do fisiológico não são recomendados.
- DHEA por via oral não melhorou a função sexual e não é recomendado para esse fim.
No Brasil, a Resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina proíbe prescrever hormônios androgênicos e anabolizantes com fins estéticos, para ganho de massa muscular ou desempenho esportivo. A reposição continua permitida quando há deficiência comprovada e benefício demonstrado.
O olhar fisiológico
A testosterona é um bom exemplo da tese deste blog. Na faixa fisiológica e na indicação certa, ela tem benefício comprovado e poucos efeitos colaterais. Acima da faixa, como nos “chips” e implantes vendidos para estética, ela deixa de ser reposição e vira risco.
Para o resto, a ciência ainda está trabalhando. Se o objetivo é músculo, força e osso depois dos 40, o caminho com mais evidência hoje continua sendo o treino de força, como mostramos no artigo sobre treino de força e longevidade. Para os sintomas da menopausa, a primeira escolha é o estrogênio, como recomenda a nova diretriz do American College of Physicians. E o princípio por trás de tudo está em fisiológico, não suprafisiológico.
“Chips da beleza”, pellets e injeções de testosterona costumam levar o hormônio muito acima da faixa feminina. Nenhuma das grandes sociedades médicas recomenda esse uso, e os efeitos de excesso, como queda de cabelo, voz grossa e alterações no colesterol, podem não ser reversíveis. Desconfie de quem promete energia, emagrecimento ou músculo com hormônio.
Se você sente falta de desejo e isso traz sofrimento, ou se tem dúvidas sobre hormônios na menopausa, procure um ginecologista ou endocrinologista que trabalhe com reposição a nível fisiológico. Existe tratamento com evidência, e ele começa por uma avaliação cuidadosa, não por um exame isolado.
Fonte:The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (Endocrine Society) e outras 10 sociedades — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women
Referências
- Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104:4660-4666.
- Islam RM et al. Safety and efficacy of testosterone for women: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trial data. Lancet Diabetes Endocrinol. 2019;7:754-766.
- Binder EF et al. Combining Exercise Training and Testosterone Therapy in Older Women After Hip Fracture: The STEP-HI Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025.
- The Menopause Society. Testosterone Therapy May Increase Risk of Cardiovascular Disease in Postmenopausal Women. Comunicado, 7 outubro 2026.
- Monash University. Prevention of Muscle Loss After Menopause Using Testosterone: The PAMELA Study.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023: prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes.


