Longevidade · 6 min de leitura

Testosterona em mulheres: o que a evidência mostra

A testosterona também é um hormônio feminino. Veja o que os ensaios clínicos comprovam, o que ainda não foi demonstrado, os riscos e por que a dose precisa ficar na faixa fisiológica.

Fonte:The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (Endocrine Society) e outras 10 sociedades — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women

Mulher de quase 50 anos, forte e em forma, de capacete branco e camiseta verde, pedala sorrindo uma mountain bike por uma trilha de terra no meio da mata.
Aviso

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.

A testosterona não é um hormônio só masculino. O corpo da mulher também produz, nos ovários e nas glândulas adrenais, em quantidade bem menor que a do homem. E ela é cada vez mais prescrita para mulheres, com promessas que vão da libido à energia, ao músculo e ao humor.

A pergunta que importa é: o que os ensaios clínicos realmente mostram? Para responder, usamos o consenso global de 2019 sobre testosterona em mulheres, assinado por 11 sociedades médicas, entre elas a Endocrine Society e a International Menopause Society, e baseado numa meta-análise de 36 ensaios randomizados com 8.480 mulheres. Somamos os estudos que saíram depois.

A testosterona no corpo da mulher

  • Ela age diretamente nos tecidos e também é convertida em outros hormônios, inclusive em estradiol, o principal estrogênio.
  • Os níveis caem ao longo dos anos reprodutivos, ainda antes da menopausa, e parecem se manter depois dos 65.
  • Medir testosterona em mulher é difícil. Os exames comuns de laboratório são pouco confiáveis na faixa feminina; o método recomendado é a espectrometria de massas.
  • Nenhum valor de exame separa uma mulher com problema de uma mulher sem problema. Testosterona “baixa” no exame, sozinha, não é diagnóstico de nada.

O que está comprovado

O consenso é claro: a única indicação com evidência sólida é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa. É a falta de desejo sexual que causa sofrimento, diagnosticada depois de uma avaliação completa, que inclui saúde física, emocional e do relacionamento.

Nessas mulheres, a testosterona em dose fisiológica, comparada ao placebo:

  • aumentou em média um evento sexual satisfatório por mês;
  • melhorou desejo, excitação, orgasmo, prazer e autoimagem;
  • reduziu a angústia ligada à vida sexual.

O efeito é moderado e consistente. As vias não orais, como gel e creme na pele, são as preferidas, porque não alteram o colesterol. A testosterona por via oral piorou o perfil de colesterol e não é recomendada.

O que ainda não foi demonstrado

Aqui está o ponto mais mal explicado na internet. Para os outros benefícios, a situação é esta:

Desfecho O que os estudos mostraram até agora
Bem-estar geral Sem efeito nos estudos disponíveis
Humor deprimido Sem efeito nos estudos disponíveis
Memória e cognição Evidência insuficiente para recomendar
Massa magra, gordura e força Sem efeito significativo em dose fisiológica
Densidade dos ossos Sem efeito em 12 meses
Prevenção de doenças Sem dados que sustentem
Não demonstrado não é o mesmo que provado que não funciona

Os estudos sobre músculo, osso e cognição foram pequenos, curtos e feitos quase sempre em mulheres que já usavam estrogênio. Eles não mostraram efeito, mas não têm força para encerrar a questão. O próprio consenso pede novos ensaios sobre músculo, osso e cognição. Até lá, a resposta honesta é “ainda não foi demonstrado”.

Os estudos mais recentes seguem nessa linha:

  • STEP-HI (JAMA Network Open, 2025): 129 mulheres com média de 79 anos, depois de cirurgia de fratura de quadril, fizeram exercício supervisionado com gel de testosterona ou com placebo por 24 semanas. A distância caminhada em 6 minutos, o desfecho principal, melhorou igual nos dois grupos. O grupo com testosterona teve melhora maior numa bateria de testes físicos, mas massa magra e força foram parecidas.
  • PAMELA (Universidade Monash, Austrália): 152 mulheres de 55 a 70 anos receberam testosterona transdérmica em dose fisiológica ou placebo por 26 semanas, para medir potência e massa muscular. O estudo foi apresentado em congresso, e os resultados completos ainda não saíram em revista.

Os riscos

Em dose que reproduz a faixa de mulheres antes da menopausa, os ensaios mostraram:

  • Acne e aumento de pelos leves em parte das mulheres.
  • Sem queda de cabelo, aumento do clitóris ou engrossamento da voz, efeitos típicos de doses acima do fisiológico.
  • Sem alteração de pressão, glicemia ou hemoglobina glicada, e sem aumento da densidade da mama na mamografia.
  • Uma tendência não significativa de mais trombose, que pode estar ligada ao estrogênio usado junto.
  • Sem dados de segurança além de 24 meses, nem dados suficientes sobre infarto, morte ou câncer de mama no longo prazo.
Um sinal novo, ainda a confirmar

Em 7 de outubro de 2026, a Menopause Society divulgou um estudo apresentado no seu congresso: em mais de 6.300 mulheres de prontuários dos Estados Unidos, quem usou testosterona teve mais eventos cardiovasculares (3,8% contra 0,5%). É um estudo observacional e retrospectivo, ainda não publicado, sem informação sobre dose ou motivo da prescrição, o que pode distorcer muito o resultado. Não prova que a testosterona causou os eventos, mas reforça que a segurança de longo prazo ainda precisa ser estudada.

Como deve ser feito, segundo o consenso

O consenso descreve o cuidado, não uma dose:

  • Diagnóstico por avaliação clínica completa, nunca só pelo exame de sangue.
  • Formulação que mantenha o nível na faixa fisiológica de mulheres antes da menopausa.
  • Dosar a testosterona total antes de começar, de novo entre 3 e 6 semanas, e depois a cada 6 meses, para evitar excesso.
  • Se não houver benefício em 6 meses, parar.
  • Onde não existe produto feminino aprovado, produto masculino em dose feminina, com monitoramento, é considerado razoável. Preparações manipuladas não são recomendadas.
  • Implantes, pellets e injeções que levam a níveis acima do fisiológico não são recomendados.
  • DHEA por via oral não melhorou a função sexual e não é recomendado para esse fim.

No Brasil, a Resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina proíbe prescrever hormônios androgênicos e anabolizantes com fins estéticos, para ganho de massa muscular ou desempenho esportivo. A reposição continua permitida quando há deficiência comprovada e benefício demonstrado.

O olhar fisiológico

A testosterona é um bom exemplo da tese deste blog. Na faixa fisiológica e na indicação certa, ela tem benefício comprovado e poucos efeitos colaterais. Acima da faixa, como nos “chips” e implantes vendidos para estética, ela deixa de ser reposição e vira risco.

Para o resto, a ciência ainda está trabalhando. Se o objetivo é músculo, força e osso depois dos 40, o caminho com mais evidência hoje continua sendo o treino de força, como mostramos no artigo sobre treino de força e longevidade. Para os sintomas da menopausa, a primeira escolha é o estrogênio, como recomenda a nova diretriz do American College of Physicians. E o princípio por trás de tudo está em fisiológico, não suprafisiológico.

Cuidado com implantes e promessas

“Chips da beleza”, pellets e injeções de testosterona costumam levar o hormônio muito acima da faixa feminina. Nenhuma das grandes sociedades médicas recomenda esse uso, e os efeitos de excesso, como queda de cabelo, voz grossa e alterações no colesterol, podem não ser reversíveis. Desconfie de quem promete energia, emagrecimento ou músculo com hormônio.

Se você sente falta de desejo e isso traz sofrimento, ou se tem dúvidas sobre hormônios na menopausa, procure um ginecologista ou endocrinologista que trabalhe com reposição a nível fisiológico. Existe tratamento com evidência, e ele começa por uma avaliação cuidadosa, não por um exame isolado.

Fonte:The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (Endocrine Society) e outras 10 sociedades — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women

Referências

  1. Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104:4660-4666.
  2. Islam RM et al. Safety and efficacy of testosterone for women: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trial data. Lancet Diabetes Endocrinol. 2019;7:754-766.
  3. Binder EF et al. Combining Exercise Training and Testosterone Therapy in Older Women After Hip Fracture: The STEP-HI Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025.
  4. The Menopause Society. Testosterone Therapy May Increase Risk of Cardiovascular Disease in Postmenopausal Women. Comunicado, 7 outubro 2026.
  5. Monash University. Prevention of Muscle Loss After Menopause Using Testosterone: The PAMELA Study.
  6. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023: prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes.