Massa muscular · 5 min de leitura

Trevogrumab: um remédio para não perder músculo com a caneta

No estudo COURAGE, o trevogrumab reduziu pela metade a perda de massa magra com semaglutida em 26 semanas. Entenda o que foi testado, os riscos e por que treino de força segue sendo a base.

Fonte:Regeneron (comunicado; resultados apresentados no congresso da EASD 2026) — Phase 2 COURAGE Trial Confirms Trevogrumab Prevents Lean Mass and Muscle Loss During GLP-1 Receptor Agonist-induced Weight Loss

Homem de quase 50 anos, cabelo grisalho nas têmporas, magro e musculoso, de camiseta verde, caminha sorrindo pela areia da praia carregando um kettlebell pesado em cada mão.
Aviso

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.

O maior ponto fraco das canetas emagrecedoras é a perda de músculo junto com a gordura. Em 1º de outubro de 2026, a Regeneron divulgou os resultados completos do COURAGE, um estudo de fase 2 apresentado no congresso europeu de diabetes (EASD): somado à semaglutida, o anticorpo trevogrumab reduziu pela metade a perda de massa magra em 26 semanas, sem mudar a perda de peso.

É a primeira vez que um remédio feito para proteger o músculo durante o emagrecimento mostra um efeito desse tamanho em centenas de pessoas. Mas a pergunta que importa é outra: o que isso significa na prática, e o que ainda falta saber.

O que é o trevogrumab

O corpo tem freios naturais para o crescimento muscular. O principal deles é a miostatina, uma proteína que avisa ao músculo que ele já é grande o suficiente. Outra proteína, a ativina A, age de forma parecida.

O trevogrumab é um anticorpo monoclonal, uma proteína de laboratório que se liga à miostatina e bloqueia esse freio. A ideia é que, durante o emagrecimento, o músculo perca menos tamanho. Ele é aplicado por injeção, junto com a semaglutida, e é desenvolvido pela Regeneron.

Como foi o estudo

O COURAGE teve duas partes, ambas com adultos com obesidade (IMC de 30 ou mais), todos usando semaglutida 2,4 mg por semana:

  • Parte de doses baixas: trevogrumab 25 mg ou 75 mg, ou placebo, por 52 semanas.
  • Parte de doses altas: cerca de 600 participantes, com trevogrumab 200 mg ou 400 mg por 26 semanas. Houve ainda um grupo com um terceiro anticorpo, o garetosmabe (contra a ativina A).

A massa magra foi medida por DEXA, um exame de composição corporal, e o volume do músculo da coxa por ressonância magnética em um subgrupo.

Os grupos do estudo não são recomendação de dose. Mostram apenas o que foi testado sob acompanhamento clínico.

Os resultados

Perda de massa magra medida pelo DEXA, na parte de doses baixas:

Grupo Em 26 semanas Em 52 semanas
Semaglutida + placebo 6,7% 7,3%
Semaglutida + trevogrumab 25 mg 4,7% 5,8%
Semaglutida + trevogrumab 75 mg 3,3% 4,2%

Outros dados que se destacam:

  • Com 75 mg, a perda de massa magra foi cerca de 50% menor em 26 semanas e 42% menor em um ano, comparada à semaglutida sozinha.
  • Na ressonância, o trevogrumab preservou de 64% a 73% do músculo da coxa que seria perdido só com a semaglutida.
  • Na parte de doses altas, segundo a apresentação relatada pela Healio, quem usou só semaglutida perdeu 3,4 kg de massa magra em 26 semanas, contra 1,6 kg a 1,9 kg com trevogrumab.
  • A perda de peso total foi parecida entre os grupos. O que mudou foi a composição: mais gordura e menos músculo no peso perdido.
  • Quem já começou o estudo com pouca massa muscular perdeu mais músculo com a semaglutida sozinha e foi quem mais se beneficiou do trevogrumab.
Massa magra não é só músculo

O DEXA chama de “massa magra” tudo o que não é gordura nem osso: músculo, mas também água, órgãos e tecidos. Parte da massa magra perdida no emagrecimento é esperada, porque um corpo mais leve precisa de menos estrutura. Por isso a ressonância da coxa, que mede o músculo diretamente, é um dado importante do estudo.

Efeitos colaterais

  • Na parte de doses baixas, 77% dos participantes com trevogrumab tiveram algum efeito adverso, contra 82% com semaglutida e placebo. Os mais comuns foram os gastrointestinais típicos da semaglutida: náusea, constipação, diarreia e vômito.
  • Segundo a Healio, os grupos com trevogrumab tiveram mais espasmos musculares que o grupo só com semaglutida.
  • O grupo com três medicamentos (semaglutida, trevogrumab e garetosmabe) teve bem mais efeitos graves e abandono por efeitos colaterais, e houve duas mortes nesse grupo, sem relação direta estabelecida com o tratamento. Segundo a Healio, o desenvolvimento do garetosmabe foi interrompido.

O olhar fisiológico

O estudo confirma algo que defendemos aqui: na perda de peso, importa o que se perde, e não só quanto. Um emagrecimento que leva muito músculo junto pode deixar a pessoa mais fraca e menos funcional, principalmente depois dos 50 anos, quando recuperar músculo é mais difícil.

Mas há três ressalvas importantes:

  1. Bloquear a miostatina não é restaurar uma função perdida. É desligar um freio natural do corpo. O efeito em longo prazo, em coração, tendões e outros tecidos, ainda é desconhecido, e o grupo com dois anticorpos mostrou que mexer nessas vias pode sair caro.
  2. Músculo preservado não é músculo forte. O comunicado fala em tamanho do músculo; dados de força e de função ainda não foram detalhados.
  3. Já existe uma forma comprovada, barata e segura de proteger o músculo. Treino de força e proteína suficiente fazem isso, como explicamos no artigo sobre preservar massa muscular durante o tratamento. E o treino ainda se associa a vida mais longa, como mostra o estudo sobre treino de força e longevidade.

Ele já pode ser usado?

Não. A própria Regeneron informa que a segurança e a eficácia do trevogrumab não foram avaliadas por nenhuma agência reguladora. O estudo é de fase 2 e o artigo completo ainda está para sair na Lancet. A empresa planeja um novo estudo em idosos com obesidade e pouca massa ou força muscular.

Cuidado com os 'bloqueadores de miostatina' da internet

Produtos vendidos como inibidores de miostatina, folistatina ou “peptídeos para músculo”, muitas vezes rotulados “para pesquisa”, não são o anticorpo testado no estudo e não têm garantia de conteúdo, dose nem pureza. Explicamos esse problema em peptídeos: o que tem evidência e o que ainda é promessa.

Se você está emagrecendo com uma caneta de GLP-1, a melhor proteção para o seu músculo hoje é a que já está ao seu alcance: treino de força duas ou três vezes por semana, proteína em todas as refeições e acompanhamento médico. Remédios como o trevogrumab podem um dia somar a isso, mas não substituir.

Fonte:Regeneron (comunicado; resultados apresentados no congresso da EASD 2026) — Phase 2 COURAGE Trial Confirms Trevogrumab Prevents Lean Mass and Muscle Loss During GLP-1 Receptor Agonist-induced Weight Loss

Referências

  1. Regeneron Pharmaceuticals. Phase 2 COURAGE Trial Confirms Trevogrumab Prevents Lean Mass and Muscle Loss During GLP-1 Receptor Agonist-induced Weight Loss. Comunicado, 1 outubro 2026.
  2. Healio. Monoclonal antibody combined with Wegovy helps preserve lean mass with obesity treatment. 5 outubro 2026.
  3. Regeneron Pharmaceuticals. Interim Results from Ongoing Phase 2 COURAGE Trial Confirm Potential to Improve the Quality of Semaglutide-induced Weight Loss. Comunicado, junho 2025.